PINTURA
O meu trabalho de pintura começa pelo exercício da fotografia. As imagens escolhidas são registros de experiências próprias em ambiente natural. Os personagens retratados encontram-se em momentos de relaxamento, contemplação, reflexão. Algumas telas trazem uma carga afetiva por mostrarem pessoas conhecidas, amigos, parentes e animais de estimação.
Na releitura pictórica da fotografia, podem ou não ser manipulados o enquadramento, a luz, as cores e os objetos da composição inicial. Ao longo do processo, acontece uma grande desaceleração no tempo de execução do trabalho. Partindo da imagem digital que levou uma fração de segundo para ser criada, a pintura de cada tela chega a levar meses até a sua finalização. Para mim, esta fase do processo é um mergulho profundo e de reflexão sobre a experiência transcorrida ao fazer a foto que deu início à obra. A dilatação no tempo da fatura se dá pela necessidade de observação e entendimento do comportamento da luz na imagem e sua representação com grande detalhamento, através do uso, em geral, de pincéis pequenos. Aqui não se visa atingir o hiper-realismo, mas uma coerência estética baseada no realismo, com a inclusão de novos elementos que são visíveis somente através da técnica fotográfica que congela o momento.
A característica documental da fotografia inicial é alterada no novo suporte. Através da revelação de novos elementos a nós antes invisíveis e a modificação de alguns aspectos do real, cria-se um universo quase improvável. A intenção aqui é a de estimular no observador a abertura para uma sensibilidade ampliada dos aspectos da nossa existência que não são captados pelos cinco sentidos. Talvez a fruição da pintura possa ajudar a trazer a conscientização de que não existe separação entre os humanos e a natureza, e que, de fato, nós somos a natureza em si.



















